17.12.12

A raiz afectuosa e a memória desvairada

Na minha desalmada maneira de ser, há muitas coisas que me ligam à terra, ou seja, ao passado, à família, a memórias exactas ou inventadas, a uma qualquer tradição que pode nem ser minha mas sim adoptada.

Há uma coisa que, roubando palavras ao tão estimado António Osório é a Raiz Afectuosa.

É também dessa raiz que extraio eu muitas vontades, como esta de aproveitar restos, comer pão com queijo e azeitonas como se não houvesse maior manjar, deixar-me embalar por sopas de pão e água com um quê de coentros e alho que seja.
Por isso também nunca deito fora uma água de cozer peixe, pois penso em açordas e arrozes variados, penso na minha avó lisboeta - Maria José - que, sem bacalhau que se visse, conseguia fazer arroz e pataniscas do dito peixe.
No dia do bacalhau à Brás, comprara no supermercado um naco de porco a que eles chamavam entremeada que apresentava tão pouca carne que (para mim) era apenas toucinho, e porque já não tenho idade para estimar demais as saúdes (a que sinto, a que o médico encontra, a que os outros projectam em mim etc) pensei em tanta coisa boa que se pode fazer com aquilo.
O meu pai, que não era dado aos prazeres da mesa, gostava de toucinho (cozido ou grelhado) esmagado no pão e lembro-me de, em dias de Cozido, guardarmos para o fim um pouco desse toucinho, para, imitando o pai,  o esmagar com o bocados de papo-seco, que ia assim recebendo o sabor untuoso, adocicado, mas com alma de sal que continua a ser para mim uma delícia.

Comprei então o tal toucinho, juntei-lhe sal grosso, para o acordar e guardei-o no frio.

No dia seguinte, antes da hora da refeição, deu-me uma fome despropositada e fui-me ao toucinho, Cortei um naco valente, sacudi-lhe o sal e levei ao lume para grelhar. O paralelipípedo de gordura e carne foi alourando, ganhando uma cor que prometia sabores e enchendo a casa com esse cheiro raro nestes dias, seja em que casa for.
Cortei umas fatias finas e comi com pão . Um prazer difícil de encontrar num restaurante, e  só acabei com aquilo por estar sozinho, já que com companhia e uns pucaritos de tinto, marcharia tudo sem "medos".

Uma hora depois fui tratar do almoço. Decidira fazer um arroz com o caldo das espinhas. Um arroz sem bacalhau como faria a minha avó na sua cozinha da Calçada Salvador Correia de Sá, mas por não saber o segredo das pataniscas dela, resolvi dar algo mais ao arroz para fazer dele refeição.
Tinha meio lombardo e cortei-o  em fatias finas (seguei-o) que depois separei em farripas e escaldei, para retirar aquele primeiro sabor/cheiro de couve que não me agrada e deixei a escorrer enquanto cozia o arroz no caldo.
Foi então que fiz algo que nenhuma das minhas avós faria, mas naquela altura, imaginei-me já a comer arroz (que tinha acabado de deitar na panela)  caldoso e apaladado pela água das espinhas, com um perfume vago de alho e azeite cru, com as farripas adocicadas da couve branca a pedirem mais qualquer coisa que logo encontrei nessa refeição antecipada. Cubos mínimos de toucinho grelhado.
Pois foi, e que bom que aquilo tudo ficou.

A raiz afectuosa e a memória desvairada