Para a Patrícia, São e Ricardo
Quem nos move? O que nos leva a fazer
isto e não aquilo?
Umas vezes sei, outras, nem por isso. Amor, vinho,
delírio ou mesmo um ET que se introduzisse no mais intímo de nós,
transformando os minutos numa espécie de carrossel, onde, por muito
que se lute, o caminho não se altera.
Saí de casa para ir ao mercado de
Alvalade comprar queijo fresco, azeitonas e broa.
Não que me fizessem muita falta, mas
deu-me para isso. Lembro-me bem de lá chegar, isso sim, mas depois, tudo foi ficando
confuso.
Deambulei pelo mercado, falei com as
pessoas do costume, sobre os assuntos de sempre, mas sentia-me
ausente ou distraído, como se não comandasse os meus passos ou sequer a
minha vontade. Como se fosse um veículo...
Ainda olhei para os queijos, mas nem
tive tempo de pensar nas azeitonas pois senti um fogo gelado pela
espinha acima e pensei logo – gripe?
Antes fosse.
O fogo envolveu-me como
uma capa mágica e de repente dei por mim no mercado de Campo
d'Ourique. Rapidamente rezei aos santinhos para que aquilo fosse um sonho, pensei em beliscar-me e ia fazê-lo quando reparei que o meu corpo, participando naquela farsa já ia mercado adentro..
Mal recordava a última vez que
ali estivera, mas fora uma coisa normal, nada como o pesadelo em que
agora me via envolvido.
Incerto do que queria ou fazia, sei que
andei pelo mercado como um zombie, ou como se sonhasse, pois passava repetidamente pelo mesmo sítio e não chegava a lado algum.
A mão parava uma e outra vez sobre a mesma peça de fruta. Sorria.
Repetia o sorriso. Falava com pessoas que não conheço e nada disto
fazia sentido. Eu não sou assim. Eu entro, compro e saio...mas desta vez era outro quem mandava.
Anda, pára, recua um passo, repete,
está bem. Mais uma vez – era este o torvelinho em que me via.
De
repente encontrei as azeitonas e provei-as. As galegas eram um pouco amargas,
mas as retalhadas estavam mesmo boas.
Senti que havia ali espaço
para alguma normalidade, mas logo apareceu um senhor que queria um
tomate para salada e um pimento pequeno, mas o tomate não estava verde como ele queria e o pimento pelo contrário faltava-lhe mais cor. Com alguma tristeza e um
resto de alentejo no falar, acabou de fazer as suas compras e seguiu caminho deixando-me de novo no pesadelo sem qualquer bóia ou ancora.
Fora-se o senhor com a sua
tristeza, e eu voltava ao mesmo.
Comprei uma e outra vez o mesmo quilo
de tomate, pedi repetidamente cebolas, funcho, e foi com esforço que conseguir
comprar as benditas azeitonas.
E para sair da praça? Foi outro drama!
Sentia-me no meio do oceano, de tanto peixe que vi. Grandes,
pequenos, salmonetes e enguias, coisas disparatadas como o camarão e
o peixe espada negro lado a lado. E pelo meio disto havia dedos a
marcar o tempo, vozes que me mandavam parar, andar e voltar atrás
como se eu fosse menos que um pinóquio.
Por fim, já na rua, tentei retomar a
minha compostura.
- Podem ser Pastéis de Bacalhau!
recordo agora ter dito.
E lá vieram eles, mas na companhia dum
arroz de tomate e pimentos, que logo me lembrou o alentejano triste, por
isso nem sei se já estou livre ou preciso de chamar algum exorcista.
Sei que cheguei a casa sem azeitonas
nem queijo. Tinha uma caixa de framboesas e ainda por cima estavam
molhadas
Sea Song - Robert Wyatt