Este texto é dedicado ao Fava (da Tasca do Montinho) e ao Maurício, alentejanos sérios e apreciadores de minis e petiscos como este que se segue. Maurício, espero que a leitura te faça fome, e vás “à terra” buscar qualquer coisa da cozinha da tua mãe.
Deixei o grão (500g) de molho durante a noite e depois cozi, durante 2 horas, numa panela grande, apenas com água (para cobrir bem o grão) e uma colher de chá com bicarbonato de sódio, que dizem amaciar os pequenos berlindes com bico. O sal só o deitei no final, depois de ter provado um granito e achá-lo tenro como se deseja.
Deixei o grão arrefecer na sua água e depois escorri e guardei.
Cozi 2 queixadas de porco (tanto sabor, tanta carne e tão barato) com uma folha de louro, uma cenoura, uma cebola, 2 cravinhos, um dente de alho e sal, durante outras duas horas, com o lume fraco. Passado este tempo, tirei a carne da água e deixei arrefecer para depois desmanchar e eliminar quaisquer vestígios da sua origem, que pudessem ferir susceptibilidades. Opto pelas queixadas, por terem ao mesmo tempo a carne escura e magra das bochechas, uns nacos de toucinho a cobrir tudo, e o sabor dos ossos e outras partes mais ou menos indistintas, que depois de cumprirem a sua função, deito fora.
Os ossos voltaram para a panela para ferver mais um pouco e apurar. Nessa altura provei e corrigi o tempero do caldo.
Com uma tigela bem cheia de grão cozido, outra com pedaços limpos de carne, outra com uns nacos de toucinho, que só eu aprecio e outra com rodelas de morcela(excelente, comprada no mercado de Alvalade) e chouriço, cozidos à parte, para não sobrecarregar os sabores, faltavam os restantes legumes.
Parti em cubos pequenos, duas cenouras, uma batata, e abóbora, mais ou menos a mesma quantidade que cenouras, mas o rigor aqui (e não só) é pouco.
Coei o caldo e aí cozi os legumes. Quando estes estavam quase cozidos juntei o resto (grão , carne, toucinho e enchidos) e, por não ter encontrado hortelã no supermercado onde fui quase em pânico por me faltar essa santa erva, juntei três raminhos de poejo que ficaram mesmo muito bem naquela molhada de sabores e texturas que se pode chamar cozido de grão ou como eu gosto jantarinho de grão.
Noutras alturas junto feijão verde e um tomate partido, mas desta vez foi só assim. Levei a tigela cheia e fumegante para a mesa, e todos comeram sem perguntas nem dúvidas sobre a bondade do que ali estava.
Nestes dias em que tenho andado “horrorizado” com os episódios do Jamie’s School Dinners, que mostram a desgraça alimentar das crianças em idade escolar no reino da rainha Isabel, fico orgulhoso ao ver a minha filha, atacar os legumes sem qualquer hesitação.
nota: como aqueles chocolates de antigamente, este prato é do tipo "coma com pão"