30.10.07
Bacalhau, batatas, forno... o costume!
Comecei pelo inevitável. Tinha duas postas de bacalhau já demolhadas e por isso virei-me para ele. (segue-se o copy & paste doutra receita deste blog) Uma panela ao lume com água , 1 dente de alho , 1 folha de louro e sal . Assim que a água começou a borbulhar deitei lá as 2 postas de bacalhau com a pele virada para baixo e quando aquele ligeira fervura recomeçou baixei o lume . Ficou assim durante 7 ou 8 minutos , depois apaguei o lume , tapei a panela e deixei o bacalhau na água, mas com o lume apagado durante mais 10 minutos. (fim do copy & paste)
Desfiz o bacalhau em lascas e devolvi peles e espinhas à panela para darem mais sabor à água.
Foi então que pensei: Como será que se faz “brandade”? Sei que o bacalhau é desfeito cuidadosamente no almofariz e que se junta azeite em fio para emulsionar. E mais?
Comecei por uma espécie de pil-pil (peço já desculpa a todos os espanhóis e descendentes mais ou menos remotos pelas incorrecções, mas eu sou intimamente incorrecto), ou seja, aqueci levemente um pouco de azeite numa frigideira, juntei 2 dentes de alho inteiros e deitei aí as lascas de bacalhau, para aquecerem e começarem a largar gelatina no azeite. Para tal o lume tem de ser fraco e, à custa de pulso, ir fazendo as lascas deslizarem no fundo da frigideira. Ao fim de algum tempo fartei-me daquilo e passei o bacalhau para o almofariz para o desfazer, juntamente com os alhos. Quando aquilo começava a parecer-se com uma pasta ( embora fibrosa) fui deitando golos de azeite e continuei a mexer e esmagar a papa, que aos poucos vai ficando mais macia. Entretanto, por falta de imaginação, tinha posto batatas a cozer para fazer puré. Esmaguei 2 com um garfo e fui juntando à papa, com a ajuda de colheradas da água de cozer o peixe.
Completei com 125ml de nata fresca, uma gema de ovo e um pouco de noz moscada. Mexi um pouco mais e reservei.
Nesta altura já sabia que seria puré de batata, com o bacalhau em cima, mas resolvi juntar uns espinafres no meio. Estes foram apenas salteados e depois picados com a faca. Juntei-lhes um pouco de nata e queijo ralado, e fui tratar do puré. Fiz tal como um que está descrito aqui em baixo e não mereceu grande atenção ( pelo menos não houve comentários) mas fica muito bom. Fiz igual, amarelinho e saboroso, para encher o fundo do prato de ir ao forno. Por cima dispuz os espinafres e acabei com o bacalhau. Polvilhei com pão ralado ( por acaso eram bolachas de água e sal) e um pouco de parmesão e levei ao forno para tostar.
28.10.07
Os clássicos pt 1 - pastéis de massa tenra
Um desses Adamastores está à beira de ser ultrapassado. Refiro-me aos pastéis de massa tenra.
A coisa já vem de longe, da mais tenra infância, quando essa maravilha era presença regular na mesa de casa dos meus pais. A massa, sempre impecável e o recheio de carne, o melhor do mundo, tal como sucedia com os croquetes.
Já farto de me ouvir gabar esses fritos, o Rodrigo foi um dia lá a casa, para um jantar especial de croquetes, para o qual minha mãe preparara uma quantidade pouco razoável ( por ser enorme) dos ditos e tudo se comeu sem hesitação ou fartanço.
O recheio e os croquetes já eu os fiz razoáveis, quase bonzinhos, embora o calor da minhas mãos torne a tarefa de os enrolar uma massada e por isso faço-os poucas vezes. Agora os pastéis de massa tenra, já são outra história. Sempre que alguém os pedia e elogiava no Pap’açorda eu dizia que os da minha mãe eram melhores, mas a coisa não passava daí, pois faltavam provas. Um destes dias encontrei duas ou três receitas num livro e fui depois procurar outras mais, para tentar descobrir o segredo da massa, mas todas os relatos eram diferentes e pouco esclarecedores.
Uma pede 300g de farinha, 20g de banha, 10g de manteiga, 1.5dl de água, a seguinte fala em 200g de farinha, leite qb e 30g de manteiga. Troco de livro e muda a receita, agora são 250g de farinha, 150g de manteiga e 0.5 dl de água.
Volto-me para o velho caderno de família e mais uma vez muda a receita. Agora é assim:
Farinha 2 chávenas, azeite 4 colheres de sopa, água morna com umas areias de sal a que levar. Amassa-se muito bem e depois tendem-se os pastéis com a massa muito fina.
Em que ficamos?
Comecei pelo recheio, que fiz com ½ quilo de carne de vaca para estufar, cortada em cubos médios, que salteei em azeite, juntei ½ chouriço em rodelas, 1 cebola picada, duas cenouras às rodelas, 2 dentes de alho e uma folha de louro e deixei estufar um pouco com lume médio e tampa posta. Passados 20 minutos temperei com sal, juntei um copo de vinho branco e outro com água e deixei fervilhar e reduzir o líquido durante mais 30 minutos aproximadamente. Passado esse tempo rectifiquei os temperos e levei tudo à 1-2-3 para picar. Entretanto fiz um molho branco com manteiga, que levei ao lume para aquecer e à qual depois juntei duas colheres de farinha. Misturei bem, deixei cozinhar a farinha e depois mexendo sempre fui juntando pingas de leite, 2 chávenas ao todo. Esse molho levou depois sal e noz-moscada, juntei-lhe o picado e espremi meio limão. Assim ficou pronto (e bom) o recheio.
Para fazer a massa dos pastéis, guiei-me pela primeira das receitas referidas acima, e usei 2 chávenas de farinha, na qual misturei a banha (1 colher de sopa) e a manteiga (2 colheres de sopa). Depois de tudo misturado e com aspecto granulado, deitei sal e comecei a juntar a água morna aos poucos – levou pouco menos de 1,5 dl. Deixei a massa descansar tapada durante meia hora e depois estendi, recheei e fiz os pastéis. Pouco depois já os fritava, um de cada vez e embora alguns tenham aberto, a maior parte fritou sem problemas e se a massa tinha algum defeito era o de estar um pouco quebradiça. O sabor estava óptimo como foi comprovado pelas testemunhas que foram, primeiro os méis filhos e duas sobrinhas e depois, já a caminho de Guimarães para o concerto do Rodrigo, o próprio e o Tiago. Elogios, sim, mas acho que posso fazer melhor, para já usando um pouco menos de gordura e comprando uma carretilha para cortar e selar ao mesmo tempo os tenros pastelinhos.
Em breve aqui.
24.10.07
Paella de porco com chouriço e espinafres
Cheguei a este prato por um caminhos estranho. Fui até ao Corte Inglês para comprar os iogurtes gregos que eu e a minha filha tanto apreciamos e, ao deambular por lá, encontrei uma peça de cachaço de porco a chamar por mim. Uma carninha raiada de vestígios de gorgura, com muito bom aspecto, que me fez pensar em cozinhá-la com feijão branco, como a feijoada do Fava.
Depois comecei com dúvidas e acabei por me resolver pela paella, quando folheava o livro do restaurante Moro em Londres ( cujo menu se pode ver nos links )em busca dum bolo de iogurte que lá vem (e eu já fiz e relatei aqui).
Para preparar este arroz espanhol comecei por fritar, em azeite e brevemente, umas tiras do cachaço – cortei 6 ou 7 bifes finos e estes em tiras. Uma vez frita a carne, reservei-a e salteei meio chouriço de carne ( bom, de Estremoz) cortado em rodelas. Baixei o lume e deitei um pouco mais de azeite para fazer um refogado a sério, com 2 cebolas e 1 pimento verde, ambos bem picados, que cozinharam durante 20 minutos. De tempos a tempos dava um aconchego para nada se pegar e aquilo lá foi ganhando cor e o adocicado da cebola. Depois juntei alho também picado e continuei a refogar durante mais 10 minutos.
Feito isto interrompi as tarefas, pois só iria completar o prato quando eles chegassem. Como a receita pedia e eu tinha ñoras (ver imagem) coloquei duas de molho em água morna, para rehidratarem.
Entretanto temperei umas azeitonas que não ficaram boas, e passei por água uns boquerones, que são anchovas pequenas abertas ao meio e limpas, que se vendem numa conserva de sal e vinagre. Passei-os por água e depois arrumei num prato em camadas com alho em rodelas finas, folhas de louro e azeite.
Também dispus umas guindillas, num prato onde, antes de servir, juntaria um maravilhoso queijo de cabra fresco que comprara nessa manhã no mercado de Alvalade. Como estavam a chegar as 2 da tarde, cortei a fruta para a sangria que seria servida depois das minis de boas vindas …
Já com os 3 convivas sentados e a dar ao dente, voltei para a paella. Comecei por aquecer 1 litro de caldo de galinha que antes preparara com uma embalagem de carne para a canja, duas cenouras, uma cebola, alho francês, sal e pimenta. Repuz a grande frigideira no lume e quando recomeçou a fritura deitei 2 chávenas de arroz Calasparra, próprio para a paella. Juntei então sal , as ñoras escorridas e já sem as sementes, uma colher de chá de colorau ( por acaso tinha ainda um pouco do que me trouxeram de Cáceres). O arroz fritou durante uns minutos e depois juntei o caldo quente para cozer o arroz durante 15 minutos.
Já com grande refilisse daqueles que, sentados à mesa, queriam que eu me sentasse também, enquanto que eu, ia e vinha, aproveitando para comer e beber em andamento, pois uma paella requer timing e carinho para correr bem, tive de saltear umas folhas de espinafres que também iam participar no arrozito. Seriam pouco mais de 300g de folhas, já lavadinhas, que salteei durante 1 minuto. Arrumei a carne de porco e os espinafres sobre o arroz, pressionei-os um pouco dentro do cozinhado, apaguei o lume e cobri com folha de alumínio para abafar durante 5 minutos antes de ser atacado pelas visitas e por mim.
Não sei como me esqueci dos quartos de limão que devem acompanhar o pitéu, mas apesar disso todos gostaram muito, mesmo a Iva, que pôs de parte os espinafres como se fossem uma doença contagiosa.
A prova dos nove para uma boa paella é poder ser comida no dia seguinte, mesmo fria. Eu comi e fiquei orgulhoso da obra.
22.10.07
Pudim de Feijão Branco
link para o Rei da Quinzena
Andei a vasculhar ,um caderno de receitas antigas e encontrei este pudim de feijão. Por ser coisa que nunca provei, fiquei curioso e no fim-de-semana tratei do assunto.
Demolhei e cozi quase meio quilo de feijão branco, mas não o usei todo, pois precisava apenas de 250g de polme de feijão. Penso que o normal seria usar o passe-vite para tratar deste assunto, mas eu não tenho um e por isso pelei o feijão à mão e depois esmaguei com um garfo. Demorou um pouco mas resultou. Fiz uma calda de açúcar com 500g de açúcar e 3dl de água, que foram a ferver até obter ponto de fio, nessa calda e fora do lume, juntei o polme de feijão. Voltou para o bico do fogão, para engrossar um pouco. Quando senti a pasta a engrossar, apaguei o lume e fui beber um café enquanto aquilo arrefecia um pouco.
Quando voltei do café, retomei os trabalhos do pudim. Bati 5 ovos inteiros mais 3 gemas, que juntei ao polme adocicado e morno. Juntei também 60g de manteiga, raspa de meio limão e uma colher de chá com canela. Bati um pouco para misturar tudo bem e desfazer a manteiga.
Esta mistura foi ao forno, numa forma de pudim caramelizada, durante 35 ou 40 minutos a 180º.
Depois foi desenformar, arrefecer e , no dia seguinte, comer. Já foi (a)provado por 5 pessoas, que ficaram admiradas quando lhes disse que era um pudim de feijão branco. Gostei muito do sabor e da textura macia.
Nota:esqueci-me de escrever que o pudim foi para o forno em banho maria, isto é, coloquei a forma num tabuleiro com água. Obrigado Katy pelo alerta.
20.10.07
TV dinner
18.10.07
O jantar de terça-feira
16.10.07
Vai haver arroz de lebre
Tão longe que eu estou de coisas quase recentes, como ajudar o meu avô a esfolar coelhos e outros.
No domingo éramos três patetas a olhar para uma lebre, pensando e agora? É fácil dizer as palavras, nisso somos bons. É preciso esfolar, limpar de tripas e outras merdas (literalmente), é preciso lavar, partir e marinar. À medida que a frase se aproxima do final vai ficando mais fácil, mas com o bicho ali estendido, ainda por esfolar a coisa não prometia.
Dar um corte nas patas traseiras e ir por aí foi a solução, com a vítima pendurada de cabeça para baixo lá foi a coisa avançando. Saíram tripas, com dúvidas sobre “o que será isto ? ”, partiu-se o ex-corredor em pedaços e foi lavado com água e vinagre. Depois deixei-a a marinar em vinho tinto, alhos, pimenta e louro. Hoje à noite vou fazer um arroz que justificará quase tudo …
Puré de batata
Usei este puré como base para uma espécie de suflée. Em cima do puré arrumei lascas de maruca cozida e acabei com um molho branco, feito com leite e água de cozer o peixe. A esse molho juntei duas gemas batidas, um pouco de sumo de limão, e por fim, as claras batidas em castelo.
Foi ao forno para crescer e dourar. Estava bom, mas o que me entusiasmou mesmo foi o puré.
11.10.07
O caril de camarão
Desta vez foi assim:
Descasquei ½ kilo de camarão e guardei as cascas, para depois as ferver durante 10 minutos, e assim obter um caldo que mais adiante usaria.
Piquei um cebola grande, um dente de alho, um pedaço de gengibre do tamanho de dois dentes de alho.Lavei e raspei por fora um pedaço de curcuma do mesmo tamanho que o gengibre.
Levei ao lume uma frigideira grande com 3 colheres de sopa de óleo de girassol e aí lancei a cebola, seguida do alho do gengibre e dum pouco de sal.
Quando a cebola começou a refogar, juntei 1 colher de chá com cominhos em pó e duas com coentros também moídos. Não juntei qualquer picante pois a minha filha ia comer caril (pelo menos assim esperava)
Escolhi um belo e maduro tomate, tirei-lhe a pele e as sementes e piquei-o para a frigideira que nessa altura já mostrava grande animação. Foi então que ralei a curcuma, que é muito macia e não fibrosa como o gengibre, e como tal desfaz-se facilmente contra a aspereza do ralador.
Enquanto tudo isto apurava, coei as cascas e nessa água (perto de duas chávenas) deitei uma chávena de coco ralado. Este ferveu um pouco e depois foi sujeito ao tratamento da varinha mágica. O resultado foi coado directamente para a frigideira. Quando começou a fervilhar, tirei um pouco de molho e nele desfiz uma colher de café com concentrado de tamarindo, que dá ao caril uma acidez suave e é muito usado na cozinha de Goa.
Juntei o tamarindo, deixei ferver um pouco e depois apaguei o lume.
Ainda era cedo, e a parte principal do caril estava pronta. Neste molho eu ia cozinhar camarões, mas podia usar o mesmo molho para cozinhar caranguejo ou peixe (como aquela cabeça de mero que o Jesus nos servira uns dias antes) Pouco antes da hora de jantar levei de novo o caril ao lume e então juntei-lhe os camarões que ao fim de cinco minutos estavam já prontos. Entretanto tinha lavado os tendlins, que cortei longitudinalmente em quatro e fritei num pouco de óleo antes de os juntar ao caril ao mesmo tempo que os camarões. Os tendlins não têm muito sabor, mas a sua consistência estaladiça, em tudo semelhante à dos seus primos “cornichons” , fica muito bem neste caril.
Nota 1
Fazendo como me ensinou a Ana Carolina, no dia seguinte, ao molho que sobrou juntei ovos cozidos e foi um novo jantar de gala.Nota 2
A minha filha rapou o prato nos dois diasNota 3
Voltando aos ensinamentos da A.C. o achar de manga acompanhou cada garfada de caril.Curcuma e tendlins
Na terça feira fui almoçar perto da Baixa, e aproveitei para fazer uma visita à mercearia indiana do Martim Moniz, onde queria comprar farinha para as apas/chapatis e puris, arroz basmati a sério, para variar desses subprodutos pouco saborosos, que agora se vendem em qualquer supermercado, e um saco folhas de caril. Então vi por lá umas coisas que julgava saber o que eram, mas não tinha a certeza.
- Isto é o quê , perguntei, e responderam-me que se tratava de açafrão, ou seja , da raiz (rizoma) da planta do açafrão. Essa raiz serve para fazer a curcuma, o pó que dá a cor amarela ao caril e serve, entre outras coisas, para estancar o sangue de forma quase mágica.
Nessa manhã, ao fazer a barba, cortei-me no lábio e fui logo direito ao armário das especiarias à procura do frasco da curcuma. O lábio sangrava a valer e por isso usei uma boa quantidade, e a verdade é que pouco depois o sangue tinha parado e à noite mal se notava o corte.
Outra coisa que me chamou a atenção foram uns pepinos pequenos e também perguntei o que era. O senhor disse-me primeiro que se tratava de pepinos, eu insisti e ele disse qualquer coisa que não entendi. Então perguntei-lhe se ele sabia o nome que davam em Goa a esses pepinos e a resposta foi a que eu esperava. Tendlins! Isso já eu tinha comido num caril de camarão. Também comprei umas belas malaguetas verdes que fazem sempre falta.
Conquistado pelos ingredientes, decidi que o jantar de quarta feira seria caril de camarão. E foi!